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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Serviço de Utilidade Pública: Herpes Gestacional


Abdomen pós-parto: dia 1

SIM, eu fui uma em 50.000, agraciada com uma Herpes Gestacional, e de modo mais raro ainda, durante o puepério...!
Decidi começar a contar minha "nova descoberta do Heitor" narrando o nosso primeiro desafio pós-hospital. Dias antes do parto, surgiram pequenas estrias na base da barriga. Como coçava muito na região, simplesmente atribuí a elas a coceira e hidratei bastante. Depois do parto, a região começou a criar essa crosta. Essa foto e a que segue foram tiradas no primeiro dia em que desconfiei que as marcas no abdomen e aquelas pequenas pintas nos braços e nas costas podiam estar relacionadas:



Costas: dia 1.


No dia seguinte, a situação era essa:


Braços, dia 2.

Liguei imediatamente para o meu pai, dermatologista. Como tenho recorrentes "brotoejas" em razão do calor excessivo, tomei por minha conta o anti-histamínico desde o dia 2 (erradíssimo, eu sei!!), mas nada acontecia. Ao ligar, ele me pediu que tirasse as fotos. Em dois dias ele viria para a capital, ver pessoalmente.

Não cheguei a mandar essas fotos, mas em dois dias ele viu "in loco" o quadro, duas vezes pior do que a foto que segue:


Braços, dia 3.

Ele me encaminhou a uma colega, e ela referendou o que ele imaginava. A doença chama Herpes Gestacional, assim descrita no Manual Merck:

"HERPES GESTACIONAL
O herpes gestacional é uma erupção intensamente pruriginosa com vesículas cheias de líquido que ocorre durante a gravidez. O termo herpes é enganoso, pois a erupção não é causada pelo herpesvírus ou por qualquer outro vírus.
Acredita-se que o herpes gestacional seja causado por anticorpos anormais que reagem contra os próprios tecidos do organismo (reação auto-imune). Essa erupção incomum pode ocorrer em qualquer momento após a 12a semana de gestação ou imediatamente após o parto.
A erupção pruriginosa geralmente é acompanhada por vesículas e bolhas irregulares cheias de líquido. Freqüentemente, o herpes gestacional começa no abdômen e, a seguir, dissemina-se. Algumas vezes, a erupção abrange uma área em forma de anel, com vesículas e bolhas em torno da borda externa. Geralmente, ela piora logo após o parto e desaparece em semanas ou meses. Ela freqüentemente reaparece nas gestações subseqüentes ou com o uso de contraceptivos orais.
O concepto pode nascer com uma erupção semelhante, a qual geralmente desaparece espontaneamente em algumas semanas. Para confirmar o diagnóstico, o médico remove um pequeno fragmento da pele afetada e envia o material ao laboratório para a detecção da presença de anticorpos.
O tratamento visa aliviar o prurido intenso e evitar a formação de novas bolhas. Para a erupção leve, a aplicação freqüente de um creme contendo corticosteróides diretamente sobre a pele geralmente ajuda. Para as erupções mais disseminadas, são prescritos corticosteróides orais. Parece que o uso de corticosteróides no final da gestação é prejudicial ao feto. Quando o prurido piora ou a erupção dissemina-se após o parto, uma dose mais elevada de corticosteróide pode ser necessária".


Outro site: "Herpes Gestacional, também chamado de Penfigóide Gestacional é uma dermatose auto-imune, rara (1/50.000 - parturientes), polimorfa, intensamente pruriginosa, associada à gravidez ao pós-parto imediato e ao cariocarcinoma".

Uma em cinquenta mil...! Aparentemente tive sorte, pois em mim ela foi diagnosticada e tratada muito rápido: só imagino o que costumam sofrer as outras mães, pois as semanas em que "curtia" minhas bolhas foram as mais terríveis imagináveis...

Daí a minha vontade de escrever ALGO sobre essa experiência, antes de falar sobre qualquer alegria ou tristeza de ser mãe... Até ser informada pelo meu pai, nunca tinha ouvido falar em Herpes Gestacional. Quando os caroços surgiram, consultei toda a VASTA literatura de gestante, tantos e tantos livros que comprei e li, e NENHUM deles se referia a ela. Um deles, inclusive, falava em Alergia à Ocitocina, que foi o que achei que tinha...

Por semanas a minha pele ardia. Por semanas, as bolhas coçavam por todo corpo... Por semanas, não consegui segurar meu filho nos braços sem chorar de dor...! Saí com ele para o Ortopediatra e o sol castigava as feridas, e eu chorava escondido, até não aguentar mais. Amamentar era um suplício, e aguentar deixá-lo se aninhar feliz, mamando, nos braços ardidos, enquanto meu instinto de sobrevivência me mandava atirar ele longe, foi uma prova de fogo.

No início do tratamento com corticóides, eu dormia praticamente sem roupa, no ar condicionado, com os braços abertos e choramingando. Olhava compulsivamente para as feridas, esperando que elas secassem. Bombeava o leite de 3 em 3 horas, e jogava todo ele fora, com muita, muita tristeza. Se o puepério já é difícil, imaginem assim...

Enfim, as feridas secam, todas elas. Daí em diante, nenhuma feridinha no seio me faria deixar de amamentar, depois de tudo que eu e o Heitor passamos para que ele usufruisse daquele leite. Foi duro. Heitor e mãe aprenderam cedo demais o que significa amar, de verdade. O amor só surge realmente quando compartilhamos simultaneamente dores e delícias... As marcas de nossas brigas (as dele, na UTI, comigo ao lado e as minhas, ferida, com ele nos braços) mensuram a dimensão do laço que nos une.